quinta-feira, 13 de junho de 2013

Antônia

Antônia
Por Milene Barazzetti
A mãe e a avó de Antônia viviam cheias de segredos. Um dia ela ainda iria acabar descobrindo tudo.
Seria possível? Será que elas pensavam que Antônia ainda era muito criança para saber de tudo?
Quando eu era pequena, minha avó dizia que quando chegasse a hora um segredo seria revelado? Será isso? Pode ser? Minha avó sempre parecia adivinhar o que eu pensava, antes mesmo de eu pedir alguma coisa. Ela sempre me mimou muito. Minha avó Antonieta, aliás, é por isso que me chamo Antônia.” (pensamento de Antônia)
Que cara estranha está a Antônia? Parece que levou um susto. Assim o Daniel nem vai querer mais nada com ela. Bem, assim, eu ataco.” (pensamento de Giovana)
- Oi Giovana!
- Oi Antônia! Seu cabelo está um arraso.
Uh! Que raiva eu escutei isso e mais um monte de chingamentos que convém nem comentar. Sínica. Ai, que difícil poder escutar o que os outros pensam.
Será que o meu pai vai deixar eu ir na Festa da Carolina”
Que gata a Letícia!”
Ah, como eu vou falar para minha mãe que não fui bem na prova de matemática. Ela vai cortar meu videogame.”
Não aguento mais, vou ter que dizer ao meu pai que gosto de meninos, não de meninas como ele quer. Mas como vou dizer ao Marcelo que estou apaixonado por ele?”
- Chega! – gritou Antônia, sem mais nem menos. Todos que passavam pela entrada da escola pararam e olharam em sua direção. Ela correu sem olhar para trás. Correu com as mãos na cabeça como se fosse adiantar alguma coisa. Não conseguia controlar. Escutava o pensamento de todos que passavam por ela.
Será que vou conseguir o emprego?”
Aquela mulher é muito ruim, tomara que ela não consiga nada.”
Vou roubar um dinheiro na carteira do meu pai.”
O que está acontecendo comigo? Esse era o pensamento da Antônia.
Entrou em casa e fui direto para o quarto. Colocou os fones no ouvido e ficou escutando músicas no seu Ipod. Pronto. Achou um jeito de não ouvir os pensamentos de ninguém, nem dela própria. O sono veio ligeiro.
Antônia acordou:
- Nossa! Já são cinco horas. E eu nem comecei a estudar para a prova de química. Que fome! O que está acontecendo comigo?
- Mãe!
Clarissa entrou no quarto:
- O que houve com você menina? Entrou correndo pela casa e se trancou no quarto?
Antônia escutou isso e também: “Não sei mais o que fazer com essa menina. Está cada vez mais estranha. Será que ela está começando a ter os sintomas?”
- Que sintomas mamãe?
- Sintomas? O que? Do que você está falando? – disse Clarissa já saindo.
Saiu para a filha não continuar ouvindo seus pensamentos.
Antônia desceu atrás dela e foi ouvindo tudo que a mãe pensava.
Agora, como vou explicar para ela. Não poderei mentir. Ela saberá. Mas minha mãe pediu para eu não contar tudo. “ (pensamento da mãe)
- Mãe! – gritou Antônia – Pode começar agora a me contar tudo que está acontecendo.
Clarissa respirou fundo e começou a história:
- A história começou há muito tempo atrás com a sua tataravó Ana. Ela nasceu com a marca da estrela. Essa mesma que você tem no braço. Todas nós temos a marca. Sua tataravó era filha de uma moça muito bonita e de um ferreiro. Dizem que esse ferreiro se apaixonou por uma moça da floresta, uma índia Guarani. O pai dele proibiu o namoro. Chegou a ameaçar caçar a índia e prende-la, caso ele insistisse. Na verdade, já estava tudo certo o casamento com a moça mais bonita da cidade, filha do Prefeito. E foi o que aconteceu. Só que a índia ficou muito triste. Dentro de seu coração cresceu uma mágoa imensa e ela vivia a chorar. As estrelas do céu, com pena da pobre índia apaixonada, resolveram dar uma solução para o fato. Quando sua tataravó estava para nascer, caiu uma chuva de estrelas. Atingiu bem o centro da testa da esposa do ferreiro que estava dando a luz. Ela não morreu, mas passou a escutar tudo que os outros pensavam. Um verdadeiro inferno virou a sua vida. Depois de um tempo, percebeu a marca da estrela no seu braço e também no braço de sua tataravó Ana. Assim, todas as descendentes tem o mesmo destino. Basta nascer com a marca. Na adolescência, todas começam a ouvir os pensamentos dos outros.
- Mãe, isso é a coisa mais ridícula que já ouvi!
- Mas é a pura verdade.
- Isso eu sei, se não fosse eu saberia. – fala Antônia, rindo. - Mas o que faço agora? Como posso parar de escutar os pensamentos?
- Não pode.
- Como assim?
- Não pode e também não pode contar para ninguém que você tem esse dom.
- Que graça tem então?
- Antônia, você não entendeu? Não é para ter graça, é uma maldição.
Maldição! Acho que a mamãe pirou de vez. Vai ser o maior barato ouvir tudo que os outros pensam. Ninguém mais vai poder mentir para mim.”(pensamento de Antônia)
Antônia saiu de casa louca para contar a seus amigos o que havia descoberto. Caminhando na rua, escutou o som dos carros, dos pássaros, do vento. Viu que assim, não escutava aquela confusão de pensamentos de todos. Pensou melhor. Não deveria contar nada a ninguém. Assim poderia descobrir o que havia por trás de cada pessoa que conhecia. Mal sabia ela que esse dom poderia lhe trazer grandes problemas. Mas isso não a afligia, nem estava em seu pensamento. O que importava agora para Antônia era curtir o momento.


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