quinta-feira, 13 de junho de 2013

A lengalenga de Pedro

A lengalenga de Pedro
Por Milene Barazzetti
- Conta uma história para eu dormir, mas daquelas de terror... Assustadora... - dizia Pedro.
Pedro vivia inventando moda para dormir. Um dia era uma história de um monstro no roupeiro, noutro embaixo da cama. Insistia em dizer que ouvia um som de ronco sem fim e vinha com uma lengalenga de que via olhos muito brancos e brilhantes espreitando-o pela janela.
Toda noite a mesma coisa. Em torno dos seus cinco anos de vida, Pedro nunca uma vez sequer conseguia dormir sozinho.
Também, o menino brincava tanto com Sebastião, garoto alegre de olhos luminosos, filho de sua babá, Dona Loló, nascido na fazenda no mesmo dia que ele. Subiam em árvores, brincavam com os cavalos, pulavam carniça. Com tanta agitação, não conseguia ter sossego, mesmo na hora do sono.
Dona Loló, uma negra formosa e simpática mimava muito o menino. Era dengo pra todo lado. Era ela a responsável pelas histórias de terror que contava ou na sombra de uma árvore para ele e Sebastião ou antes de um cochilo. Histórias com Tutus de todos os tipos.
- Loló, não inventa mais estas histórias para Pedro, não. – dizia a mãe do menino.
A babá sempre respondia a mesma coisa:
- Ah, Sinhá, deixa que eu vele o sono do menino. Tutu Marambá, Boi da Cara Preta, Bicho Papão, comigo por perto ninguém chega perto dele não.
Em uma das noites a babá teve que deixar a vigília do menino para cuidar da Sinhá que estava enferma. Um vento forte entrou pelo quarto de Pedro e apagou a vela. O menino gritou:
- Socorro! Socorro! O bicho tá aqui! Não consigo respirar. Socorrooooo!!!!
Poft! Poft! Poft! A xícara de chá que Loló levava para Sinhá se estatelou no chão. Ela corre para o quarto. Chegou lá esbaforida. O menino estava na janela prestes a pular, tremendo, chorando e com os olhos esbugalhados.
A babá, tentando não fazer barulho e nem movimentos bruscos, acabou conseguindo chegar até o menino e abraçá-lo.
Pegou Pedro no colo e o acalentou, cantando a canção com que o ninava todos os dias:
-Tutu Marambá não venhas mais cá
Que a mãe do menino te manda matar.
E assim, ao som da canção, Pedro e Dona Loló dormiram.
Naquela noite, não se ouviu mais o choro do menino.
Apenas um ronco insistente vindo da sua janela.
Será que um dia isso ia acabar? Será?

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